— Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?
— Oh! vazio! meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?
— O vinho acabou-se nos copos, Bertram, mas o fumo ondula ainda nos cachimbos! Após os vapores do vinho os vapores da fumaça! A taverneira ai nos trouxe mais vinho: uma saúde!
Bravo! bravo!
— Quero que todos se levantem, e com a cabeça descoberta digam-no: Ao Deus da natureza, aquele filho das coxas de um deus e do amor de uma mulher, e que nos chamamos melhor pelo seu nome — o vinho!…
— Ao vinho! ao vinho!
Os copos caíram vazios na mesa.
— Agora ouvi-me, senhores Nessa noite de relâmpagos e lampejos, quando as cabeças queimam e os cotovelos se estendem na toalha molhada de vinho, como os braços do carniceiro no cepo gotejante, o que nos cabe é uma historia sanguinolenta.
— Uma história medonha, não?
-Mas quanto a essa, podeis tremer e suar a gosto. Não é um conto, é uma lembrança do passado.
— Solfieri! Solfieri! aí vens com teus sonhos!
— Conta!

1- SOLFIERI
— Era em Roma. A noite ia bela. As luzes se apagaram uma por uma. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela. Ela cantava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar uma insânia.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se. E então saiu.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão.
O frio da noite causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher.
Um ano depois voltei a Roma. Uma noite, e após uma orgia. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida. Saí. Não sei como era a noite; estava afogado em embriaguez.
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro As luzes de quatro círios batiam num caixão. Abri-o: era o de uma moça… Era uma defunta! … e aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida. Cerrei as portas da igreja. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão.
Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Rasguei-lhe o vestido.
O gozo foi fervoroso. Derrepente a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados… Não era já a morte: era um desmaio.
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta como uma criança.
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
Pórem, convencir-lhes que era minha mulher desmaiada e que precissava ver o doutor.
Estava cansado. e eu sentia que a moça ia despertar.
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo…
Fechei a moça no meu quarto.
Meia hora depois fui revê-la.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia.
Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.
Depois de morta fui ver com um estatuário, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Fechei-a no seu túmulo.
— Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?
— E quem era essa mulher, Solfieri?
— Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
— Solfieri, não é um conto isso tudo?
— Pelo inferno que não! por meu pai bandido, por minha mãe que era prostituta! eu vô-lo juro — guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Hei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

2- BERTRAM

Uma figura se levantou.Esvaziou o copo cheio de vinho, e com a barba nas mãos alvas, falou:
— Sabeis, uma mulher levou-me a perdição. Foi ela quem fez-me num dia ter três duelos com meus três melhores amigos, abrir três túmulos àqueles que mais me amavam na vida .
Oh! por essa bela espanhola, eivar a eito de gozos de uma existência fogosa!
Senhores!— à saúde das Espanholas!…
Amei muito essa moça, chamava-se Ângela. Quando eu estava decidido a casar-me com ela, tive de partir da Espanha para Dinamarca onde me chamava meu pai.
Dois anos depois foi que voltei. Quando entrei na casa de meu pai, ele estava moribundo; ajoelhou-se no seu leito e agradeceu a Deus ainda ver-me, , banhou-me a fronte de lágrimas depois deixou-se cair.
Eu também chorava, mas era de saudades de Ângela…
Logo que pude voltei para a Espanha.
Quando voltei. Ângela estava casada e tinha um filho…
Contudo meu amor não morreu! Nem o dela!
Passei meus dias como amante de meu já antigo amor.
Mas um dia o marido soube tudo.
Era alta noite quando Angela me chamou. Ao entrar em sua casa avistei Ângela com os pés nus, o vestido solto, o cabelo desgrenhado e os olhos ardentes tomou-me pela mão… Senti-lhe a mão úmida…. . Tinha sangue.
— Sangue, Ângela! De quem é esse sangue?
A Espanhola sacudiu seus longos cabelos negros e riu-se.
Entramos numa sala.
Ao avistar a mesa.
eu vi… Era horrível!… O marido estava degolado.
Sobre o peito do assassinado estava uma criança de bruços. Estava morta também.
— Vês, Bertram, esse era o meu presente. Foi por ti que tive força bastante para tanto crime… Vem, tudo esta pronto, fujamos.
Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Bebidas,orgias e viagens sem fim.
Um dia ela partiu: partiu. Mas sua lembrança ficou como o fantasma em meu coração.
Quis esquecê-la no jogo, nas bebidas, na paixão dos duelos.
Me envolvi com uma jovem a qual roubei de seus pais, e logo que estava perdido na vida, vendi-lhes suas jóias e mais tarde, a própria.
Um dia eu ia suicidar-me. A noite era escura e eu chegara só na praia. Subi num rochedo: daí minha última voz foi uma blasfêmia. Joguei-me.
Porém, acordei com vida boiando no mar e sendo levado a costa, e atordoado por aquele ser que me socorria e frustrara meu suicídio. matei-o. Cansado do esforço desmaiei…
Quando acordei, me vi em meio a um barco de marinheiro. Mais uma vez,havia de ser socorrido.
O comandante era um belo homem. Pelas faces vermelhas caiam-lhe os crespos cabelos loiros onde a velhice alvejava algumas cãs.
Ele perguntou-me:
— Quem és?
— Um desgraçado que não pode viver na terra, e não deixaram morrer no mar.
— Queres pois vir a bordo?
— Servir? deixai que me atire ao mar…
— Não queres servir? queres então viajar de braços cruzados?
— Não: quando for a hora da manobra dormirei: mas quando vier a hora do combate ninguém será mais valente do que eu…
— Muito bem: gosto de ti.
O comandante trazia a bordo uma bela moça. Criatura pálida, parecera a um poeta o anjo da esperança adormecendo esquecido entre as ondas. Os marinheiros a respeitavam. Nunca ninguém lhe vira olhares de orgulho, nem lhe ouvira palavras de cólera: era uma santa.
Era a mulher do comandante.
E ela!?… ela no meio de sua melancolia, de sua tristeza e sua palidez, ela sorria as vezes quando cismava sozinha, mas era um sorrir tão triste que doía.
Um poeta a amaria de joelhos. fiz-lhe uns versos. Na lânguida poesia, eu derramara uma essência preciosa e límpida que ainda não se poluíra no mundo…
Bofé que chorei quando fiz esses versos. Um dia, meses depois, li-os, ri-me deles e de mim; e os atirei ao mar. Como somos toscos quando em nossa parte a paixão bate.
Com suas lágrimas, com seus sorrisos, com seus olhos úmidos e os seios intumescidos de suspiros, aquela mulher me enlouquecia as noites. Seguia noites em que sozinho eu me imagina por baixo dos lençóis a acariciando.
Amei-a e era recipocro. Aquele seio palpitante, o contorno acetinado, apertei-os sobre mim…
O comandante dormia.
Uma vez entramos em combate com piratas. Lado a lado os navios se debatiam.
A corveta vomitou sua gente a bordo do inimigo. O combate tornou-se sangrento — era um matadouro!… o chão do navio escorregava de tanto sangue, o mar ansiava cheio de escumas ao boiar de tantos cadáveres.
E nesse tempo enquanto o comandante se batia como um bravo, eu o desonrava como um covarde.
Quando acordei um dia, o navio tinha encalhado num banco de areia… Meu despertar foi a um grito de agonia…
Depois foi um quadro horrível! Éramos nós numa jangada no meio do mar. Uma noite, a tempestade veio… apenas houve tempo de amarrar nossas munições…Muitos morreram, e se ouvia seus pedidos de perdão a deus. Ao encalhar na terra eu vivi meus dias as escondidas com a mulher do comandante,enquanto ele comandava os sobreviventes.
Toda as noites, passei-a nos meus braços. Nossas pequenas cabanas construídas com restos de barco e a saúde dos tripulantes não duraram muito tempo.
Quando a aurora veio, restávamos cinco: eu, a mulher do comandante, ele e dois marinheiros…
— Por que empalideces, Solfieri! a vida e assim. Tu o sabes como eu o sei. O que é o homem? Miséria! loucura!
— Não havia mais alimentos, e no homem despertava a voz do instinto, das entranhas que tinham fome, que pediam seu cevo como o cão do matadouro, fosse embora sangue.
Deus nos criou perfeitos. mas é a ironia mais amarga,é que tudo isso se apaga diante de dois fatos muito prosaicos — a fome e a sede.
um fato velho e batido, uma pratica do mar, uma lei do naufrágio — a antropofagia.
Dois dias depois de acabados os alimentos, restavam três pessoas: eu, o comandante e ela. — Eram três figuras macilentas como o cadáver, cujos peitos nus arquejavam como a agonia, cujos olhares fundos e sombrios se injetavam de sangue como a loucura.
A fome apertava de novo. Tiramos a sorte… o comandante teve por lei morrer.
— Olhai, dizia o miserável, esperemos até amanhã… Deus terá compaixão de nos… Por vossa mãe, pelas entranhas de vossa mãe! por Deus se ele existe! deixai, deixai-me ainda viver!
Oh! a esperança é pois como uma parasita que morde e despedaça o tronco.branqueiam ao longe parecem fugir! Pobre louco!
Eu ri-me do velho. Morrer hoje, amanhã, ou depois… tudo me era indiferente, mas hoje eu tinha fome, e ri-me porque tinha fome.
Eu ri-me porque tinha fome.
Depois, as aves do mar já baixavam para partilhar minha presa; e às minhas noites fastientas uma sombra vinha reclamar sua ração de carne humana…
Lancei os restos ao mar…
Eu e a mulher do comandante passamos um dia, dois, sem comer nem beber…
Então ela propôs-me morrer comigo. — Eu disse-lhe que sim. Esse dia foi a última agonia do amor que nos queimava… Era o gozo febril que podem ter duas criaturas em delírio de morte
Estava louca.
Não dormi, não podia dormir.
Tinha febre no cérebro… e meu estômago tinha fome. Tinha fome como a fera.
Apertei-a nos meus braços, oprimi-lhe nos beiços a minha boca em fogo, apertei-a convulsivo, sufoquei-a. Ela era ainda tão bela!
Não sei que delírio estranho se apoderou de mim.
De repente senti-me só.
Quantas horas, quantos dias passei naquela modorra nem o sei… Quando acordei desse pesadelo de homem desperto, estava a bordo de um navio.
Olá, taverneira, bastarda de Satã! não vês que tenho sede, e as garrafas estão secas, secas como tua face como nossas gargantas?

 

3- GENNARO

—Enquanto contavas tua história, lembrava-me uma.
— Uma história?
— Sim: e uma das minhas historias. Sabes, Bertram, eu sou pintor… É uma lembrança triste essa que vou revelar.
Godofredo era um velho gênio. Velho já, casara com uma beleza de vinte anos. Godofredo era pintor.
Eu era nesse tempo moço: era aprendiz de pintura em casa de Godofredo. Eu tinha quase a idade da mulher do mestre. Nauza tinha vinte e eu tinha dezoito anos.
Amei-a. Nauza também me amava: era um sentir tão puro
Como eu o disse: o mestre tinha uma filha chamada Laura. Era uma moca pálida, de cabelos castanhos e olhos azulados. Laura parecia querer-me como a um irmão. Seus risos, seus beijos de criança de quinze anos eram só para mim. A noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com minha lâmpada,, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces, nas trevas.
Muitas noites foi assim.
Uma manhã — eu dormia ainda — o mestre saíra e Nauza fora a igreja, quando Laura entrou no meu quarto e fechou a porta: deitou-se a meu lado. Acordei nos braços dela.
O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre o meu, isso tudo… ao despertar dos sonhos alvos da madrugada, me enlouqueceu…
Todas as manhãs Laura vinha a meu quarto…
Três meses passaram assim. Um dia entrou ela no meu quarto e disse-me:
— Gennaro, estou desonrada para sempre…
Um raio que me caísse aos pés não me assustaria tanto.
— E preciso que cases comigo, que me peças a meu pai, ouves, Gennaro?
Eu calei-me.
— Não me amas então?
Eu calei-me.
— Oh! Gennaro! Gennaro!
E caiu no meu ombro desfeita em soluços. Carreguei-a assim fria e fora de si para seu quarto.
Nunca mais tornou a falar-me em casamento.
Que havia de eu fazer? contar tudo ao pai e pedi-la em casamento? Fora uma loucura… Ele me mataria e a ela: ou pelo menos me expulsaria de sua casa…: E Nauza? cada vez eu a amava mais. Era uma luta terrível.
O velho levava as noites passeando no escuro. Já não pintava. Vendo a filha que morria.
Uma noite… foi horrível… vieram chamar-me: Laura morria. Na febre murmurava meu nome e palavras que ninguém podia reter, tão apressadas e confusas lhe soavam. Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me. Ergueu-se branca, com a face úmida de um suor copioso, chamou-me. Sentei-me junto do leito dela. Apertou minha mão nas suas mãos frias e murmurou em meus ouvidos:
— Gennaro, eu te perdôo: eu te perdôo tudo.
… Era o último suspiro.
Um ano todo se passou assim para mim. O velho parecia endoidecido. Todas as noites fechava-se no quarto onde morrera Laura: levava aí a noite toda em solidão. Dormia? ah que não! Longas horas eu o escutei no silêncio arfar com ânsia, outras vezes afogar-se em soluços.
Uma noite eu disse a Nauza que a amava. Ela voltou a face: eu cri que era desdém, ergui-me
—Então Nauza, tu não me amas, disse eu.
Ela permanecia com o rosto voltado.
— Adeus, pois; perdoai-me se vos ofendi; meu amor é uma loucura, minha vida é uma desesperança
Tomei-lhe a mão e beijei-a.
E as noites que o mestre passava soluçando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos braços de Nauza.
Uma noite houve um fato pasmoso.
O mestre veio ao leito de Nauza. Gemia e chorava aquela voz cavernosa e rouca: tomou-me pelo braço com força, acordou-me e levou-me de rasto ao quarto de Laura…
Atirou-me ao chão: fechou a porta. Uma lâmpada estava acesa no quarto. Ergueu o lençol que o cobria. Era Laura moribunda!
Eu tremi de ver meu semblante tão lívido na tela e lembrei-me que naquele dia ao sair do quarto da morta.
Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me, e chorei lágrimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava.
No outro dia o mestre conversou comigo friamente. Lamentou a falta de sua filha, mas sem uma lágrima. Mas sobre o passado na noite, nem palavra.
Todas as noites era a mesma tortura, todos os dias a mesma frieza.
Uma noite, depois da ceia, o mestre tomou sua capa e uma lanterna e chamou-me para acompanhá-lo. Tinha de sair fora da cidade e não queria ir só. Saímos juntos: a noite era escura e fria. Caminhamos juntos muito tempo: cada vez mais nos entranhávamos pelas montanhas. O velho parou. Era na fralda de uma montanha. À direita o rochedo se abria num trilho: à esquerda as pedras soltas por nossos pés a cada passada se despegavam e rolavam pelo despenhadeiro e, instantes depois, se ouvia um som como de água onde cai um peso…
A noite era escuríssima.— Espera-me aí, disse ele, já venho.
— Gennaro, quero contar-te uma história. É um crime, quero que sejas juiz dele. Um velho era casado com uma moça bela. De outras núpcias tinha uma filha bela também Um aprendiz .
Eu estremeci, os olhares do velho pareciam ferir-me.
— Nunca ouviste essa história, meu bom Gennaro?
— Nunca, disse eu a custo e tremendo.
— Pois bem, esse infame desonrou o pobre velho, traiu-o como Judas ao Cristo.
— Mestre, perdão!
A voz de escárnio dele me abafava.
—se houvesse um castigo pior que a morte, eu to daria. Olha esse despenhadeiro!. E pois, se tens ainda no coração maldito um remorso, reza tua última oração: mas seja breve…
Eu estava ali pendente junto à morte. Tinha só a escolher o suicídio ou ser assassinado. Matar o velho era impossível. Uma luta entre mim e ele fora insana. Ele estava armado.
— Estou pronto, disse.
O velho riu-se: infernal era aquele rir dos seus lábios estalados de febre. Só vi aquele riso… Depois foi uma vertigem. A queda era muito rápida… Quando acordei estava junto a uma cabana de camponeses que me tinham apanhado junto da torrente, preso nos ramos de uma azinheira gigantesca.
Logo que sarei, uma idéia me veio: ir ter com o mestre. Ao ver-me salvo assim daquela morte horrível, pode ser que se apiedasse de mim, que me perdoasse, e então eu seria seu escravo. Viver com aquele remorso me parecia impossível. Parti pois: no caminho topei um punhal. Ergui-o: era o do mestre. Veio-me então uma idéia de vingança.
Quando cheguei a casa do mestre achei-a fechada. Bati… não abriram. saltei o muro:: com pouco esforço arrombei a porta. O raio da luz bateu em uma mesa. Junto estava uma forma de mulher com a face na mesa, e os cabelos caídos.
Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabeça… — Era Nauza!… mas Nauza cadáver, já desbotada pela podridão. Levantei uma ponta da capa que estava na poltrona: o corpo caiu de — Era o velho!…

4- CLAUDIUS HERMANN

— E tu, Hermann! Chegou a tua vez. Um por um evocamos ao cemitério do passado um cadáver.
— Pois bem! quereis um historia? Eu pudera conta-las… Essas minhas nuvens do passado.
-Bravo, bravissimo. – Diz Bertram se levantando o rosto da mesa e gritando bêbado.
— Silêncio, Bertram! Vos todos, sabem que eu amais o jogo. No fim desse dia fatidico eu tinha dobrado minha fortuna.
No dia seguinte eu a vi: era no teatro. lá estava uma mulher, bela como tudo quanto mais puro. Essa mulher era a duquesa Eleonora… No outro dia vi-a num baile… Depois…Foram 6 meses de tortura de paixão por ela.
Um dia achei que era demais. Todo esse tempo havia passado em contemplação. Uma noite tudo dormia no palácio do duque. A duquesa, cansada do baile. Adormecia.
O reposteiro do quarto agitou-se: um homem aí estava parado, absorto.
esse homem jurava que nessa noite gozaria aquela mulher. Chegou-se a ela, ergueu-a com suas roupas de, seus seios meio-nus, onde os diamantes, deu-lhe um beijo. Ao calor daquele beijo, seminua, ela acordou,mais acreditando que era um sonho, voltou a adormecer.
O homem tirou do seio um frasquinho de esmeralda.
Levou-o aos lábios dela. Deitou-a e esperou. Daí a instantes o sono dela era profundíssimo.
A lâmpada brilhou com mais força e apagou-se…
O homem era Claudius Hermann.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quando me levantei, me vesti e sai pelas ruas. Ao sair pensava que nunca poderia deixar de sentir o corpo dela ao meu, e tão logo sempre que havia um baile e a duquesa caia em bebedeira, era hora de tomar-la em meus braços.
Uma noite — era depois de um baile — eu a esperei escondido atrás do seu leito. quando entrou ela com o Duque.
Eles se beijavam apaixonadamente,e eu, engolindo minha raiva a seco, segurei o punhal em meu bolso com força.
Ele então saiu para resolver algo, e ele disse que depois voltava. Nesse momento eu sorri,por saber que ele nu ca voltaria.
Ele saiu e ela começou a despir-se.
E então sai do leito, e a dopando, ergui-a do leito, carreguei-a com seus peitos ainda quentes.
Corri com ela pelos corredores desertos— a última porta estava cerrada — abri-a.
Na rua estava um carro de viagem. Entrei com ela dentro do carro. Partimos.
Breve estivemos fora da cidade.
A carruagem corria sempre.
Paramos numa estalagem: lancei-lhe sobre a face um véu, tomei-a nos meus braços, e levei-a a um aposento.
Deitei-a no leito, cerrei as janelas para que a luz lhe não turbasse o sono. Não havia ali ninguém que nos visse, estávamos sós.
contemplava cada movimento gracioso. Não sei quanto tempo correu assim.
— É um sonho? murmurou. Onde estou eu? quem esse homem encostado em meu leito?
O homem não respondeu.
Ela desceu da cama: seu primeiro impulso foi o pudor: quis encobrir com as mãozinhas os seios palpitantes de susto. Sentiu-se quase nua, exposta às vistas de um estranho.
Ela pergunta o que esta havendo.
nem sei o que ela dizia. Eu a escutava, mas não a entendia.
A moça chorava, soluçava: por fim ela ergueu-se.
Eu a vi correr a janela, ia abri-la… Eu corri a ela e tomei-a pelas mãos…
Eu tapei-lhe a boca com as mãos…
Ela lutava para livrar-se de minhas mãos: por fim sentiu-se enfraquecida. Eu soltei-a de pena dela.
-por que tudo isso que eu vejo? Tudo o que penso, o que adivinho é muito horrível!
E ao me declarar a ela de forma poética ela sentiu repulsa a mim.
As lágrimas, os soluços abafavam-lhe a voz.
Pedi perdão.
— Oh! deixai-me! deixai-me!…-Ela respondia.
Doía-me profundamente aquela dor: aquelas lágrimas me queimavam.
— Matai-me então! Não tereis um punhal! Uma punhalada pelo amor de Deus! Eu juro, eu vos abençoarei…
Ela escondeu a cabeça nas mãos e soluçou.
— É impossível, eu não posso amar-vos!
Disse lhe que a faria a mulher mais feliz do mundo, que era rico e que a levaria pra conhecer o mundo. Dei a ela um tempo para pensar.
Sai: duas horas depois voltei.
— Pensaste, Eleonora?
Ela não respondeu. Estava deitada com o rosto entre as mãos. À minha voz ergueu-se.
Ela calou-se: chorava e gemia.
Acerquei-me dela, ajoelhei-me como ante Deus.
— Eleonora, sim ou não?
— Irei contigo.
E desmaiou.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Aqui parou a historia de Claudius Hermann.
Ele abaixou a cabeça na mesa, não falou mais.
Estas morto?-pergunta Bertram o tocando.
— Deixai-me, amaldiçoados! deixai-me pelo céu ou pelo inferno! não vedes que tenho sono… sono e muito sono?
— E a história, a historia? bradou Solfieri.
— Um dia Claudius entrou em casa. Encontrou o leito ensopado de sangue e num recanto escuro da alcova um doido abraçado com um cadáver. O cadáver era o de Eleonora, o doido nem o pudéreis conhecer tanto a agonia o desfigurara! Era uma cabeça desgrenhada, uns olhos fundos onde o lume da insânia cintilava a furto.
Mas ele o conheceu… — era o Duque Maffio…
Claudius soltou uma gargalhada. — Era sombria como a insânia, fria como a espada do anjo das trevas. Caiu ao chão, lívido e suarento como a agonia, inteiriçado como a morte…
Daí a alguns instances as seus roncos de barítono se mesclavam ao magno concerto dos roncos dos dormidos…

JOHANN

— Agora a minha vez! Era em Paris, num bilhar. Não sei se o fogo do jogo me arrebatar a… Jogava contra mim um moço: chamava-se Artur.
Era uma figure loura e mimosa como a de uma donzela.
Faltava um ponto a meu adversário para ganhar. A mim, faltavam-me não sei quantos.
Soltei a bola. Nessa ocasião o bilhar estremeceu… com o desvio dela perdi… A raiva levou-me de vencida. Adiantei-me para ele.
Caminhei para ele: ressoou uma bofetada. O moço convulso caminhou para mim com um punhal, mas nossos amigos nos sustiveram.
— Isso é briga de marujo. O duelo.
— Senhor, disse ele, não há meio de paz entre nos: um bofetão e uma luva atirada as faces . E pois um duelo de morte.
Concordei.
— Pois bem: tenho no mundo só duas pessoas — minha mãe e… Esperei um pouco.
O moço pediu papel, pena e tinta. Escreveu: as linhas eram poucas. Acabando a carta deu-ma a ler.
Artur fechou a carta, selou o lacre com um anel que trazia no dedo. Ao ver o anel uma lágrima correu-lhe na face e caiu sobre a carta.
— Senhor, sois um homem de honra. Se eu morrer, tomai esse anel: no meu bolso achareis uma carta: entregareis tudo a… Depois dir-vos-ei a quem…
— Estais pronto? perguntei.
— Ainda não! antes de um de nos morrer,vamos duelas ao céu poente.
— Seja como quiserdes, disse eu.
Foi a uma secretária, abriu-a: tirou duas pistolas.
Caminhamos frente a frente. As pistolas se encostaram nos peitos. As espoletas estalaram, um tiro só estrondou, ele caiu quase morto…
— Tomai, murmurou o moribundo e acenava-me para o bolso.
Atirei-me a ele. Tirei-lhe o anel da mão. Meti-lhe a mão no bolso como ele dissera. Achei dois bilhetes.
A noite era escura: não pude lê-los.
Voltei à cidade. À luz baça do primeiro lampião vi os dois bilhetes. O primeiro era a carta para sua mãe. O outro estava aberto, li:
— “A uma hora da noite na rua de… n.° 60, 1.° andar: acharás a porta aberta.
Tua G.”
Não tinha outra assinatura.
Eu não soube o que pensar. Tive uma idéia: era uma infâmia.
Fui a entrevista. Era no escuro. Tinha no dedo o anel que trouxera do morto… Senti uma mãozinha acetinada tomar-me pela mão, subi. A porta fechou-se.
Foi uma noite deliciosa! A amante do loiro era virgem! Pobre Romeu! Pobre Julieta!
(Johann encheu o copo: bebeu-o, mas estremeceu.)
Quando eu ia sair, topei um vulto à porta.
— Boa noite, cavalheiro… eu vos esperava há muito.
Essa voz pareceu-me conhecida. Porém eu tinha a cabeça desvairada…
Não respondi: o caso era singular. Continuei a descer, o vulto acompanhou-me. Quando chegamos a porta vi luzir a folha de uma faca. Fiz um movimento e a lamina resvalou-me no ombro. A luta fez-se terrível na escuridão. Eram dois homens que se não conheciam.
O punhal escapou-lhe das mãos, perdeu-se no escuro. Era meu momento, eu,um homem na escuridão abafando a boca do outro com a mão, sufocando-lhe a garganta com o joelho, e a outra mão a tatear na sombra procurando um ferro.
O homem morrera sufocado. Ergui-me.
Arrastei o cadáver pelos ombros levei-o pela laje da calcada até ao lampião da rua, levantei-lhe os cabelos ensangüentados do rosto…
(Igor treme segurando o copo de vinho).
Aquele homem era meu irmão! Subi ao quarto de minutos atrás, com nervosismo.
Ao chegar lá, a garota estava demaiada. Os seios nus e virgens estavam como os de uma estátua.
Abri a janela, levei-a ate aí…
Na verdade que sou um maldito!

(Igor encosta seus cotovelos apoiados na mesa e a palma em sua cabeça, e começa a chorar)
— Que tens, Johann?porque choras homem!
— O que tenho? o que tenho? Era minha irmã!

ÚLTIMO BEIJO DE AMOR

A noite ia alta. Os nossos narradores dormiam nas trevas.
Uma luz raiou pela porta. A porta abriu-se. Entrou uma mulher vestida de negro. Era pálida. o anjo perdido da loucura.
A mulher curvou-se: com a lanterna na mão procurava uma por uma entre essas faces dormidas um rosto conhecido.
Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se.. Ergueu-se. Quando chegou a Johann, que dormia, o olhar tornou-se-lhe sombrio.
Abaixou-se junto dele, depôs a lâmpada no chão. A fronte da mulher pendeu e sua mão passou na garganta dele. Um soluço rouco e sufocado ofegou daí. A desconhecida levantou-se… Era um punhal… Atirou-o ao chão. Viu que tinha as mãos vermelhas, enxugou-as nos longos cabelos de Johann…
Voltou a Arnold; sacudiu-o.
— Acorda e levanta-te!
— Que me queres?
— Olha-me… não me conheces?
— Tu! e não é um sonho? És tu! Cinco anos sem ver-te! E como mudaste!
— Sim, já não sou bela como há cinco anos! É verdade, meu loiro amante!! Outrora era Giorgia — a virgem, mas hoje e Giorgia — a prostituta!
— Meu Deus! meu Deus!
E o moço sumiu a fronte nas mãos.
— Não me amaldiçoes, não!
— Oh! deixa que me lembre: estes cinco anos que passaram foram um sonho. Aquele homem do bilhar, o duelo à queima-roupa, meu acordar num hospital, essa vida devassa onde me lançou a desesperação.
— Tuas palavras me doem…
—Não pensaste que, após cinco anos, cinco anos de febre e de insônias, de esperar e desesperar, de vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te para te deixar?
— Compaixão, Arnold! É preciso que esse adeus seja longo como a vida.
— Não me chames Arnold! chama-me Artur, como antes. Artur . Há tanto tempo que não ouço me chamarem por esse nome!… Eu era um louco! quis afogar meus pensamentos e vaguei pelas cidades e nas cavernas solitárias. Vem, Giorgia! senta-te aqui, senta-te nos meus joelhos, bem conchegada a meu coração. um beijo! quero sentir ainda uma vez o perfume que respirava outrora nos teus lábios. tenho tanto a dizer-te
— Obrigada, Artur! obrigada!
A mulher sufocava-se nas lágrimas, entre beijos palavras de amor.
— Escuta, Artur, eu vinha só dizer-te adeus!… Artur, eu vou morrer!
Ambos choravam.
— Agora vê, continuou ela. Acompanha-me: vês aquele homem?
Arnold tomou a lanterna.
— Johann! morto! sangue de Deus! quem o matou?
— Giorgia! Era ele um infame. Foi ele quem deixou por morto um homem a quem esbofeteara numa casa de jogo. Giorgia — a prostituta! vingou nele Giorgia — a virgem! Esse homem foi quem a desonrou! desonrou-a, a ela que era sua… irmã!
— Horror! horror!
E o moço virou a cara e cobriu-a com as mãos.
A mulher ajoelhou-se a seus pés.
— E agora adeus! adeus que morro!
A mulher recuava… recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos dela… Ela deu um grito e caiu-lhe das mãos. Era horrível de se ver. O moço tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-o no peito, e caiu sobre ela. Dois gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo…
A lâmpada apagou-se.

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